ARTIGO: INTIMIDADES

Por Antônio Novais Torres

 

Abobrinha e Jenipapo são apelidos de duas figuras formidáveis. Nasceram na mesma cidade, moraram na mesma rua, frequentaram, juntos, jardins e praças, estudaram na mesma escola e no mesmo colégio. Eram amigos inseparáveis nas travessuras e brincadeiras lúdicas: futebol e jogo com gude (jogo infantil com bolinhas de vidro que, num percurso de ida e volta, devem entrar em três buracos dispostos em linha reta, saindo vencedora a criança que chegar primeiro ao buraco inicial) e tantas outras brincadeiras do entretenimento de antanho. O destino encarregou-se de separá-los: Abobrinha, cuja graça era Asclépio da Silva, teve esse apelido dado pelos colegas de pelada, pelo fato de certa feita, em um jogo matinal, ter ficado tonto e regurgitado pedaços de abóbora (jerimum) que havia comido no café. Mudou-se para São Paulo com a família e lá se formou em Medicina, especializando-se em gastrenterologia.

Por Antônio Novais Torres


Abobrinha e Jenipapo são apelidos de duas figuras formidáveis. Nasceram na mesma cidade, moraram na mesma rua, frequentaram, juntos, jardins e praças, estudaram na mesma escola e no mesmo colégio. Eram amigos inseparáveis nas travessuras e brincadeiras lúdicas: futebol e jogo com gude (jogo infantil com bolinhas de vidro que, num percurso de ida e volta, devem entrar em três buracos dispostos em linha reta, saindo vencedora a criança que chegar primeiro ao buraco inicial) e tantas outras brincadeiras do entretenimento de antanho.

 

O destino encarregou-se de separá-los: Abobrinha, cuja graça era Asclépio da Silva, teve esse apelido dado pelos colegas de pelada, pelo fato de certa feita, em um jogo matinal, ter ficado tonto e regurgitado pedaços de abóbora (jerimum) que havia comido no café.

 

Mudou-se para São Paulo com a família e lá se formou em Medicina, especializando-se em gastrenterologia.

 

Jenipapo, de prenome Midas,  homenagem de seu pai ao rei Midas da mitologia grega (rei semilendário da Frígia, que recebeu de Sileno, um sátiro companheiro de Dionísio, o dom de transformar em ouro tudo que tocasse), cuja alcunha lhe fora dada pelo fato de a mãe ser licorista e ele encarregado de entregar para a freguesia o licor de jenipapo, uma especialidade da genitora.  De cada garrafa tomara um gole e embebedou-se, sendo recriminado pela irresponsabilidade do ato.

 

 Devido à perspicácia, inteligência e sagacidade no comércio, fez  jus ao nome que o pai lhe dera, amealhou fortuna, ficando milionário.

 

Asclépio retornou à cidade natalícia e montou um consultório, exercendo a sua especialidade com profissionalismo e competência. Midas fora um dos primeiros a se consultar com o médico, não por necessidade clínica, mas para revê-lo. Devido à amizade com o doutor, não separou o tratamento da intimidade de amigos do tratamento formal ao profissional. No consultório, cheio de clientes aguardando a sua vez, insolente, pediu à secretária para falar com o Abobrinha. Ela respondeu-lhe: “Aqui não tem nenhum Abobrinha, meu senhor, e sim o Dr. Asclépio Silva.  Para ser atendido o senhor precisa, antes, fazer a ficha e pagar a consulta. É a norma”.

 

Por conta da resposta, sentindo-se ofendido, destratou a funcionária com muita grosseria e deseducação. Irritado e constrangido pelo esclarecimento da secretária, que não o conhecia, e a vergonha que passou diante dos circunstantes, esbravejou  autoritário sem tergiversar: “Vá lá e diga ao Abobrinha que é o Jenipapo que quer lhe falar, somos amigos de infância e a amizade que temos permite-me o tratamento informal, arrogante declarou, se ele é doutor, eu sou um empresário rico e seu amigo”.

 

O Dr. Asclépio, após  ouvir o desentendimento com a secretária, fê-lo entrar e esclareceu-lhe o comportamento dela, defendendo a sua posição de exigir respeito ao profissional médico. Alegou que não havia nenhum problema o amigo trata-lo pelo  apelido, mas que o ambiente requeria uma postura convencional e respeitosa do tratamento. Indignado e entendendo as explicações do esculápio como uma soberbia, jenipapo aborreceu-se com o amigo por achá-lo presunçoso e disse-lhe com arrogância: “Pois fique com o seu Dr. e eu com o meu patrimônio. No meu comércio todos me tratam por Jenipapo e isso nunca me constrangeu, na verdade ambos iremos ser consumidos pelos vermes de igual forma, com ou sem o título de doutor”. Saiu batendo a porta do consultório, contrariado com o  médico que não o quis ofender, mas assim fora entendido por Jenipapo.

 

A propósito, ocorre-me um episódio entre uma jornalista recém-formada e o presidente Jânio Quadros. A jornalista fora encarregada de fazer uma entrevista com o presidente, que agendou recebê-la após o expediente. Todos sabem que Jânio gostava de uma destilada, assim deduz-se que, no fim do expediente, já havia tomado algumas doses.

 

A jornalista iniciou a entrevista toda cheia de si e orgulhosa pelo seu primeiro trabalho e, com entusiasmo, perguntou ao entrevistado: “Jânio Quadros...” antes de completar a pergunta, o interlocutor a interrompeu: “Alto lá! Presidente Jânio Quadros ou, na pior das hipóteses, Dr. Jânio, pois intimidade só serve para duas ciosas: fazer menino e criar inimizade e com a senhora não quero nenhuma das duas”. Como era de se esperar, pela admoestação,  a entrevista fracassou.

 

Voltando ao caso dos amigos Abobrinha e Jenipapo, as vaidades impediram-nos de se reconciliarem. Em vista disso, foram transformados em inimigos, faltou diálogo, tolerância, compreensão e bom senso, ingredientes da boa convivência e de civilidade.

 

Quando as pessoas se tornam personalidades importantes, quer profissional ou em qualquer outro status social, em geral, há um limite, uma barreira para impedir  as intimidades.  Ainda que haja conhecimentos íntimos, presume-se que a importância do cargo deve ser considerada nas formalidades exigidas com  tratamento adequado à ocasião.

 

É necessário que os homens passem a ser identificados pelos valores éticos e morais e não pelo poder econômico e/ou social que desfrutam”.

 

Deixo aos leitores a reflexão da análise e as suas conclusões sobre o assunto ventilado. 


Comentários
  • Manoel Teixeira

    gostei da mensagem, viajei na estória. seria legal se colocassem sempre artigos tais quais este, para nosso deleite literário.

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